Capítulo 2: A EsperanÇa é a santa Cruz!
O mundo
acabava, mas a prima de Robert, a capitã Alice, sequer desconfiava. Chefe do
departamento de ciência e tecnologia da marinha, estava engajada em uma
campanha de arrecadação de mantimentos para o Projeto Rondon, que ocupava sua
mente. Para sua alegria, estava agora em sua cidade natal, Araraquara, fazendo
a arrecadação em frente a um dos maiores mercados da cidade, ao lado da igreja
Santa Cruz. As doações eram até fartas, já passava da hora do almoço, mas ela e
seus companheiros, membros de uma ONG local, não arredavam pé. Foi quando o
horror surgiu diante de seus olhos.
O trânsito estava caótico, bem como o fluxo de pedestres que entravam no mercado e saiam com sacolas cheias de enlatados. Nas ruas, jovens estudantes recém-admitidos na universidade faziam a tradicional cobrança de pedágio, tumultuando ainda mais o trânsito. Foi quando um grito de agonia calou o burburinho. Uma das alunas era agredida por um homem, que devorava seus dedos. Outros estudantes foram acudi-la e também foram atacados a mordidas. Um dos estudantes caiu morto, sem metade do pescoço, que fora arrancada à dentadas, mas se levantou logo em seguida, após uma série de espasmos assustadoramente violentos, e passou a atacar os demais. Em poucos minutos estava formado o pandemônio. Estudantes e outros canibalizavam as pessoas próximas que, após uma inquestionável situação de óbito, se levantavam e se juntavam aos canibais. O corre-corre teve início, pessoas se empurrando em uma fuga desesperada, carros se chocando uns contra os outros, atropelando pedestres, tudo era válido para fugir do inferno que se formara. Uma horda de maníacos sedentos de carne humana descia a avenida José Bonifácio em velocidade. Foi quando Alice viu a van da ONG, que os levaria para almoçar, manobrando por cima da praça da igreja para tentar uma fuga. Levando seus companheiros consigo, correram até a van e embarcaram. Ao chegar na rua Padre Duarte, a situação era ainda pior: explosões se uniam à massa em pânico tornando o local um cenário de guerra. Rumaram para a avenida Barroso, desviando dos carros, pedestres e acidentes que ocorriam aqui e ali. Foi quando o telefone de Alice tocou.
O trânsito estava caótico, bem como o fluxo de pedestres que entravam no mercado e saiam com sacolas cheias de enlatados. Nas ruas, jovens estudantes recém-admitidos na universidade faziam a tradicional cobrança de pedágio, tumultuando ainda mais o trânsito. Foi quando um grito de agonia calou o burburinho. Uma das alunas era agredida por um homem, que devorava seus dedos. Outros estudantes foram acudi-la e também foram atacados a mordidas. Um dos estudantes caiu morto, sem metade do pescoço, que fora arrancada à dentadas, mas se levantou logo em seguida, após uma série de espasmos assustadoramente violentos, e passou a atacar os demais. Em poucos minutos estava formado o pandemônio. Estudantes e outros canibalizavam as pessoas próximas que, após uma inquestionável situação de óbito, se levantavam e se juntavam aos canibais. O corre-corre teve início, pessoas se empurrando em uma fuga desesperada, carros se chocando uns contra os outros, atropelando pedestres, tudo era válido para fugir do inferno que se formara. Uma horda de maníacos sedentos de carne humana descia a avenida José Bonifácio em velocidade. Foi quando Alice viu a van da ONG, que os levaria para almoçar, manobrando por cima da praça da igreja para tentar uma fuga. Levando seus companheiros consigo, correram até a van e embarcaram. Ao chegar na rua Padre Duarte, a situação era ainda pior: explosões se uniam à massa em pânico tornando o local um cenário de guerra. Rumaram para a avenida Barroso, desviando dos carros, pedestres e acidentes que ocorriam aqui e ali. Foi quando o telefone de Alice tocou.
Era uma voz
conhecida: Verônica, uma antiga aluna a quem orientara na confecção do trabalho
de conclusão de curso de psicologia da USP. “Um apocalipse zumbi está
acontecendo. Nós vamos para uma fazenda nos refugiar. Estamos na dezesseis, nos
encontre aqui”, dizia ela. Sem compreender totalmente a gravidade da situação,
orientou o motorista a seguir pela avenida Barroso na direção indicada pela
garota.
No caminho,
atropelaram um homem na rua. Em desespero, o motorista desceu para acudir o
ferido, que se levantou e o atacou a dentadas, matando-o. Alice assumiu o
volante e partiu, vendo, horrorizada, pelo retrovisor o homem se erguer como
mais um morto-vivo. Minutos depois chegava à avenida Castro Alves, a dezesseis.
O trânsito já estava ficando caótico ali e avistou o carro de Verônica, um mini
cooper rosa e branco, descendo por uma rua para escapar. A amiga rica da
garota, Blair, seguia atrás em seu carro semelhante, um mioni cooper branco e
rosa, e à frente do grupo reconheceu o carro de seu primo. Acelerou e
rapidamente se juntou ao grupo, que reduzia a velocidade para passar entre os
condomínios próximos ao asilo.
Robert usava a
sirene que tinha mandado instalar em seu carro para tentar dispersar a multidão
que fugia em pânico do condomínio. Foi quando seu celular tocou. Era um email
do doutor Zeius. Mandou o computador de bordo abrir e reproduzir o email e um
vídeo foi exibido. Em seu laboratório, Dr. Zeius fazia um apelo a seus colegas
cientistas:
_ Está
acontecendo! É como naqueles filmes ridículos! Aqueles malditos filmes estavam
certos, bom em parte, porque é muito pior que nos filmes. Essa coisa, esse
vírus, ele tem um alto poder de mutação. Ele se modifica em horas o que
qualquer espécie levaria gerações para mudar. Esta coisa estava latente e então
sofreu uma mutação que causou tudo isto. E está acontecendo no mundo todo! Já
ouvi dizer que os bambus, quando um floresce, todos florescem ao mesmo tempo,
como mulheres sincronizando o ciclo menstrual. Mas essa coisa não é bem assim.
É como se ele estivesse programado para isso, como se só aguardasse o momento,
como uma contagem regressiva. Como se alguém o tivesse construído desta forma.
Meu Deus! O que eles fizeram? Agora está tudo perdido. O meu laboratório foi
tomado pelos corpos de estudos e agora pesquisadores, seguranças e todo o
pessoal de apoio foi contaminado. Inclusive eu. O vírus se alastra muito
rápido, mas a magnitude da rapidez e a forma como os efeitos irão se manifestar
variam de caso a caso. Talvez tenha a ver com o tipo sanguíneo ou DNA. Só o que
me resta é transmitir este relato a vocês e fazer o máximo possível de testes,
antes que seja tarde demais. Vou recolher amostras e testar com diversos
compostos. Não há tempo para descrever tudo, mas as amostras estarão guardadas
aqui neste laboratório. Programei a câmera para desligar automaticamente e o
envio automático do email. O vídeo já está anexado. Espero que meus últimos
momentos sejam úteis para aqueles que sobreviverem. Compartilhem com os demais
que encontrarem, vocês são a última esperança da humanidade.
O som de um
estampido foi ouvido em seguida e o vídeo terminou. Robert ligou para Verônica,
que chamou Blair e Alice e, em conferência, o vídeo foi novamente exibido. Para
não assustar a mãe e a avó, Blair colocou os fones de ouvido, distraindo-se por
um momento e não percebendo o caminhão de lixo que se aproximava em alta
velocidade.
O caminhão
saiu à toda do condomínio, abalroando e arrastando Blair e sua família. O mini
cooper se chocou violentamente contra o poste em frente ao asilo, os air bags inflaram e o carro ficou todo
destruído. O caminhão ainda continuou desgovernado por mais uma quadra,
arrastando carros estacionados e arrancando árvores até finalmente parar.
Blair acordou
um tempo depois, atordoada demais e viu sua mãe se levantando também em iguais
condições. O amigo de Verônica, Robert, tentava salvar a vida de sua avó,
atingida diretamente pelo caminhão na colisão. A situação era crítica e todos
tentavam ajudar. A mulher sangrava muito e tinha um pedaço da fuselagem fincada
em seu ventre. O estado dela começou a piorar, Robert tomou medidas drásticas e
arrancou a parte que a perfurava. Estancou a hemorragia o melhor que pode,
medicou todos os feridos, tomou sua dose cavalar de tranquilizantes, mas sabia
que a idosa precisava de tratamento intensivo urgente. Mas tinham que sair
dali, organizar-se, estar em segurança para então raciocinar e encontrar um
meio de cuidar dela. O centro da cidade estava inacessível, como disse Alice.
Então Blair teve uma idéia:
_ A Santa Cruz! Podemos nos esconder lá!
Santa Cruz
Medicamentos era uma grande distribuidora de remédios que ficava às margens da
rodovia Washington Luiz. Possuía um grande muro, era vigiada por câmera e tinha
remédios. Sem hesitar, Blair começou a mover suas coisas para o carro de
Verônica, enquanto Robert, Alice e os voluntários da ONG colocavam a idosa Ema na
van e cuidavam dela. Enquanto trabalhavam, o terror se multiplicava. Viram atônitos
um homem que fugia com seu cão e um saco de arroz ser devorado pelo infectados.
Em defesa do dono, o cachorro também foi atacado e morto, levantando-se em
seguida como um cachorro zumbi. Um dos mortos atacou e devorou pombas que
estavam no muro do condomínio, deixando todos atemorizados. “Existem mais de
300 bilhões de pássaros, mais de 75 para cada habitante” – lembrava-se Robert
de suas aulas de biologia. “O vírus tem um alto poder de mutação” – agora as
palavras do Dr. Zeius ecoavam em sua mente, se o vírus sofresse uma mutação e
se tornasse capaz de infectar os pássaros, não haveria esperança para a
humanidade. Os segundos demoraram a passar, mas quando a pomba permaneceu
imóvel no solo, puderam respirar com alívio...por um segundo.
Um dos
infectados atacou Verônica. Ela disparou a arma que tinha na bolsa, mas errou o
tiro e foi jogada ao chão, atracada com o cadáver carnívoro. Os outros correram
para acudi-la, ela conseguiu jogá-lo para trás com as pernas e disparou um tiro
certeiro em sua cabeça. Estava acabado, pensou ela, ledo engano. Sua arma de
baixo calibre perfurara sim o cérebro, como se lembrava que deveria fazer dos
filmes que assistira. Mas, diferentemente dos filmes, o zumbi permanecia ativo,
tentando mordê-los. Ao que parecia, era necessário causar grande dano ao
cérebro das criaturas, praticamente destruí-lo por completo para exterminá-las.
Robert, percebendo isto, puxou de sua bengala o sabre oculto e arrancou a
cabeça do infectado num único golpe. O corpo tombou e a cabeça continuava
mexendo o maxilar faminto no solo, era uma cena de puro horror. Verônica não
resistiu e acabou desmaiando em choque.
Rapidamente
ocuparam os carros e partiram rumo à avenida Presidente Vargas. Ao passar pelo
caminhão de lixo, um dos garis, oculto entre os sacos de rejeitos, saltou sobre
o carro de Robert. O médico acelerou o carro, jogando a criatura para trás, em
cima do carro de Verônica, agora pilotado por Blair. O homem era apenas um
arremedo do que tinha sido outrora. Sua boca abrira-se num ângulo impossível,
transformando seu crânio numa bocarra aberrante sem rosto e com enormes dentes
de tubarão. Tentava mastigar o para-brisa, Blair manobrou o mini cooper em alta
velocidade, entrando na avenida e jogando o monstro no asfalto. Acendeu um
cigarro para se manter centrada. Segundos depois estavam diante da
distribuidora de remédios.
O local estava
tomado de infectados. Ao lado, a rodovia Washington Luis era um retrato do
inferno. Os moradores dos condomínios próximos tentavam a todo custo fugir para
a estrada, provocando trânsito e caos. Pessoas contaminadas perambulavam entre
os carros, atacando seus donos e aumentando as fileiras dos mortos-vivos, era
preciso agir rápido.
Robert acionou
a sirene e desceu a rua em alta velocidade. Os zumbis foram atraídos pelo
barulho, deixando o caminho livre para Blair, que rapidamente chegou ao portão
da fábrica. Desceu do carro disparando com a arma que tinha para todos os
lados, derrubando os mortos em seu caminho. Conseguiu colocar o veículo para
dentro e se trancou, esperando o retorno do médico. Viu com assombro a horda
pútrida procurando a fonte do som dos disparos. O refúgio não duraria muito
tempo.
Robert voltou
alguns minutos depois, Blair liberou a entrada para ele, estacionaram os carros
em forma de “U”, formando uma barricada diante do portão e foram para dentro do
depósito de medicamentos. Foram horas de tormento, mas agora estavam em
segurança. A Santa Cruz era quase uma fortaleza e poderiam ter um momento de
descanso para se recompor, tratar os feridos e pensar numa estratégia. Estavam
confiantes que sobreviveriam. Verônica despertou também, igualmente confiante e
muito feliz ao ver que todos ali haviam sobrevivido...por enquanto.
Ou ouça no player abaixo:
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