Capítulo 1: O médico, a psicóloga, a
corredora...e os mortos!
Era uma
sexta-feira, o dia 17 de fevereiro de 2017. Foi quando tudo começou. Fazia sol,
mais um dia de calor intenso na cidade de Araraquara, região central do estado
de São Paulo. Alguns acreditavam que a região era um ponto estratégico, do
ponto de vista logístico, industrial, comercial. Mas ninguém sequer levava em
consideração as complicações que, estar a centenas de quilômetros do mar, numa
região populosa, poderiam surgir. Verônica Red era uma destas pessoas.
Como fazia
todos os dias, Verônica recebia os pacientes em seu consultório no centro da
cidade para ouvir suas queixas, suas lamúrias e para aconselhá-los da melhor
maneira possível, tentando dar um alento àquelas pessoas em troca de boas
quantias de dinheiro. Eram 11:30 da manhã e após dispensar a última paciente da
manhã, uma mulher paranoica com a traição do marido, que se julgava chamariz
para homens adúlteros, Verônica se preparava para ir almoçar com sua amiga,
Blair O’Brian, a grande corredora de fórmula 1 que estava de volta para um
período de férias na cidade. Foi quando bateram à porta.
Era um dos
pacientes de Verônica e estava transtornado. Olhos esbugalhados, trêmulo,
mancando. Contrariada, Verônica concordou em atende-lo, após muita insistência.
Dizia sentir-se perseguido, temia que as pessoas tentassem matá-lo e se
assustou violentamente quando Verônica retirou o smartphone da bolsa para
colocá-lo em modo silencioso. Tudo começara dias antes, quando ele havia sido
atacado por seu outrora dócil cãozinho. Nerd que era, Verônica tratou de
dispensar rapidamente o homem, tendo sempre ao seu alcance a sua arma, presente
de seu pai militar. Para ela era impossível não associar a pandemia global de
vírus ARN-49, o vírus Cerberus, aos filmes de zumbis que gostava de assistir.
E, embora os governos negassem, a rede Hazma de jornalistas independentes
afirmava categoricamente que o vírus já havia chegado ao continente americano,
onde milhares de pessoas eram vacinadas (muitas vezes à força, como ocorria nos
Estados Unidos) com um suposto soro imunizante que, por coincidência, havia
sido desenvolvido pela Cerberus Lab, a mesma empresa que, segundo boatos
difundidos inclusive pela Hazma, havia criado o vírus ARN-49 à pedido das
forças armadas estado-unidenses. Trêmulo e cambaleante, o homem deixou o
consultório. Verônica respirou aliviada por um instante e foi se encontrar com a
amiga.
Blair O’Brian,
a amiga de infância de Verônica, desde cedo diferia das outras meninas por sua
paixão quase obsessiva por carros e mecânica. Filha de imigrantes irlandeses
bem sucedidos financeiramente, não tardou a entrar para o mundo das corridas e
começar a competir profissionalmente até se tornar a primeira mulher a pilotar
na Fórmula 1. Amada pelos brasileiros e apontada como sucessora do herói Airton
Senna, Verônica fez fama, fortuna e era cotada como uma das favoritas ao título
de 2017, ainda no início do campeonato. Entretanto, as disputas foram
interrompidas no mundo todo pelo avanço do ARN-49, a fim de evitar proliferação
do vírus pelo mundo. Assim, Blair passava férias com sua família em sua cidade
natal. Comprara uma antiga escola (que ocupava um quarteirão inteiro) e fizera
ali seu novo lar, em frente à casa onde sua companheira, Verônica, morava. Sua
avó, sofredora do mal de Alzheimer, pediu-lhe alguns temperos especiais para
preparar o faisão que Blair comprara para o almoço. A idosa espancava a ave
congelada, queixando-se da carne dura, enquanto a neta saia para a rua em seu
carro, um mini.
Foi na rua
Voluntários da Pátria, já próximo à quitanda que algo estranho aconteceu. Logo
após interagir com um grupo de estudantes que festejavam em um famoso bar
local, num “esquenta” para a recepção aos calouros logo mais à noite, Blair
interrompeu seu percurso para testemunhar algo bizarro. Um homem, que era
perseguido por uma multidão em fúria, parou diante de seu carro, sendo
rapidamente cercado pela turba. Um rapaz corpulento avançou sobre ele,
agredindo-o por ter mordido sua namorada, assim como fizera a outras pessoas
segundo os gritos da multidão. Em desespero, ou não, o perseguido mordeu seu
agressor e outras pessoas que tentavam apartar os dois. A polícia chegou em
seguida, dispersando a multidão e contendo o “canibal”. Os golpes de cassetete
pareciam não serem sentidos por ele e foi preciso muita violência e dois
soldados para contê-lo. Enquanto um terceiro policial dispersava a multidão, o
quarto integrante do pelotão, que interrogava as testemunhas, chegou a Blair,
perguntando se vira algo. Ela deu seu testemunho e foi logo reconhecida pelo
soldado que pediu para tirar uma foto com ela. Enquanto faziam as “selfies” o
suspeito aproveitou-se da distração para morder os policiais que o seguravam.
Juntos os quatro oficiais voltaram a espanca-lo, enquanto Blair partia com seu
carro rapidamente. Blair havia filmado tudo com seu celular e rapidamente disponibilizou
em suas redes sociais, compartilhando o vídeo com a rede Hazma. Em seguida,
recebeu notificação de denúncia do seu vídeo e do seu perfil, por parte de um
tal Hamilton que trabalhava para a Cerberus Lab.
Já de volta à
sua casa encontrou sua amiga Verônica e elas contaram uma à outra os estranhos
fatos que vivenciaram e, ao perguntar à avó se vira algo estranho nos jornais
daquela manhã, a idosa relatou o trágico naufrágio que ocorrera, vitimando mais
de mil pessoas, entre outros detalhes. Ignorando a história do Titanic
recontada pela milésima vez as duas checaram seus celulares e viram que o tal
Hamilton tentava adicionar as duas, se desculpando com Blair pelo ocorrido. A
resposta ao homem foram fotos ofensivas, com o dedo do meio levantado. O som de
helicópteros e sirenes de polícia tomou conta das ruas e Blair ligou a
televisão, vendo uma hesitante repórter dizendo que um confronto de
manifestantes dificultava o trânsito na cidade e aconselhando as pessoas a
ficarem em suas casas.
* * * * * * * * *
Robert Neville
era um competente infectologista que atuava em Araraquara. Atuara na ONU em
missões no Haiti, onde fora ferido na perna da qual agora mancava. Havia
terminado de atender seu terceiro e último paciente do dia e, enquanto se
preparava para ir almoçar, enviava um e-mail para o Doutor Zeius, colega com o
qual atuara na ONU, pedindo maiores informações a respeito do vírus ARN-49 e,
inclusive amostras para estudos. Vira nos noticiários e acompanhava também por
intermédio da rede Hazma a situação da pandemia global e sabia que tinha que
estar preparado. Dr. Zeius lhe informara as formas de contágio (fluídos
corporais, basicamente) e alertava para a alta capacidade de mutação do vírus
(havendo até algumas suspeitas de formas de contaminação pelo ar) e se comprometera
a tentar conseguir o envio de uma amostra, extremamente controlada, do agente
infectante. Enquanto tentava sair do hospital São Paulo, por uma saída de
acesso restrito, foi surpreendido por um residente em desespero. Havia ocorrido
um grave acidente na rodovia SP-255, dois carros colidiram de frente,
aparentemente para desviar de alguém a pé na estrada. A situação era gravíssima
e, com muitos médicos já em horário de almoço, coube ao Dr. Neville ajudar,
ainda que a contragosto. Mesmo sob orientação de Robert, o residente terminou
por piorar o estado de um dos pacientes e, transtornado, feriu-se com o próprio
bisturi. Neville assumiu a posição, salvando a vida do acidentado e logo depois
pode finalmente deixar o centro cirúrgico com o retorno dos demais
plantonistas.
Enquanto
Robert Neville almoçava tranquilamente checou seu celular e viu que um
pesquisador estadunidense de nome Hamilton o adicionara no Facebook, dizendo-se
fã de seu trabalho. O astuto infectologista solicitou amostras do vírus ARN-49
sem adicionar o seu novo “amigo”. Foi quando começou a ouvir o som das sirenes
e dos helicópteros e, desconfiado, ligou para a polícia, se aproveitando da sua
patente no exército exigiu informações sobre o que acontecia. Segundo o capitão
Malaquias, havia na cidade um confronto entre manifestantes pró e contra o
prefeito que causara a confusão toda. Intrigado com a situação e suspeitando
que o capitão mentia, enviou uma mensagem para uma das poucas pessoas pelas
quais tinha estima, sua antiga colega de faculdade, Verônica Red.
Na casa de
Blair, Verônica recebeu a mensagem de Neville a alertando, então ligou para seu
pai, militar de alta patente, perguntando o que de fato ocorria. Falando em
código, por estar obviamente vigiado, o Major Red orientou a filha a se colocar
em segurança, deixando claro que a cidade já estava perdida.
Verônica
desligou e avisou a amiga da gravidade da situação e planejaram ir para a praia
e avisaram Neville por mensagem, foi quando ouviram o som de dois veículos se
chocando, em frente à casa da psicóloga e correram para lá.
O homem que
atravessara o para-brisa subitamente levantou-se e caminhou na direção das duas
amigas enquanto Blair chamava uma ambulância, depois foi em direção à mulher no
outro carro e pedia por ajuda. Enquanto as duas filmavam, o homem devorava a
vítima do acidente diante das câmeras de seus celulares que transmitiam ao vivo
pelo Facebook. Um tumulto se formou, com diversas pessoas chegando para
acudirem e sendo atacadas à mordida pelo homem. Em pânico, Blair largou tudo
para trás e correu para casa. Verônica conseguiu balear o agressor no joelho e
ameaçou outro que tentava segurar Blair. O homem soltou a garota e em seguida
foi atacado por outro agressor a mordidas, indo ao chão.
Era o início
do fim. Rapidamente, Verônica começou a juntar coisas importantes no seu carro,
munição, comida, água, seu cachorro e tudo mais que pudesse ser útil para
sobrevivência, além de seu cachorrinho. De forma semelhante, Blair enchia seu
carro de coisas e sua mãe e sua avó. Ao mesmo tempo, Robert, que já pegara
aquilo que considerava importante em seu consultório, já ligava para Verônica
para combinar um plano de fuga e se dirigia para sua casa.
Cada pessoa
atacada ia a óbito e logo em seguida se levantava em convulsão e espasmos,
tornando-se também uma aberração canibal e atacando os que ainda estavam vivos.
Neville chegou atropelando um destes seres horrendos. Calmamente recolheu uma
amostra do sangue infectado em seu kit médico enquanto as amigas ganhavam a rua
com seus carros. Agora juntos, os três se dirigiam para a avenida Castro Alves,
para chegarem rapidamente a uma das saídas da cidade e se refugiarem na fazenda
do médico. Enquanto conversavam em conferência pelo WhatsApp, Verônica já
enviava mensagens aos seus outros amigos, informando onde estavam e para onde
iam .
Evitaram por pouco uma batida enquanto Blair via as notificações pulando no
celular, da Hazma avisando para encontrar lugar seguro e do dr. Hamilton,
ordenando que parasse com os vídeos. No curto trajeto até a avenida, assistiam
aterrorizados à cena que acontecia: os mortos se levantavam e devoravam os
vivos. O fim do mundo começara.
Baixe o áudio da sessão clicando aqui
Ou ouça no player abaixo:
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