segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Capítulo 1 - O médico, a psicóloga, a corredora...e os mortos

Capítulo 1: O médico, a psicóloga, a corredora...e os mortos!
Era uma sexta-feira, o dia 17 de fevereiro de 2017. Foi quando tudo começou. Fazia sol, mais um dia de calor intenso na cidade de Araraquara, região central do estado de São Paulo. Alguns acreditavam que a região era um ponto estratégico, do ponto de vista logístico, industrial, comercial. Mas ninguém sequer levava em consideração as complicações que, estar a centenas de quilômetros do mar, numa região populosa, poderiam surgir. Verônica Red era uma destas pessoas.
Como fazia todos os dias, Verônica recebia os pacientes em seu consultório no centro da cidade para ouvir suas queixas, suas lamúrias e para aconselhá-los da melhor maneira possível, tentando dar um alento àquelas pessoas em troca de boas quantias de dinheiro. Eram 11:30 da manhã e após dispensar a última paciente da manhã, uma mulher paranoica com a traição do marido, que se julgava chamariz para homens adúlteros, Verônica se preparava para ir almoçar com sua amiga, Blair O’Brian, a grande corredora de fórmula 1 que estava de volta para um período de férias na cidade. Foi quando bateram à porta.
Era um dos pacientes de Verônica e estava transtornado. Olhos esbugalhados, trêmulo, mancando. Contrariada, Verônica concordou em atende-lo, após muita insistência. Dizia sentir-se perseguido, temia que as pessoas tentassem matá-lo e se assustou violentamente quando Verônica retirou o smartphone da bolsa para colocá-lo em modo silencioso. Tudo começara dias antes, quando ele havia sido atacado por seu outrora dócil cãozinho. Nerd que era, Verônica tratou de dispensar rapidamente o homem, tendo sempre ao seu alcance a sua arma, presente de seu pai militar. Para ela era impossível não associar a pandemia global de vírus ARN-49, o vírus Cerberus, aos filmes de zumbis que gostava de assistir. E, embora os governos negassem, a rede Hazma de jornalistas independentes afirmava categoricamente que o vírus já havia chegado ao continente americano, onde milhares de pessoas eram vacinadas (muitas vezes à força, como ocorria nos Estados Unidos) com um suposto soro imunizante que, por coincidência, havia sido desenvolvido pela Cerberus Lab, a mesma empresa que, segundo boatos difundidos inclusive pela Hazma, havia criado o vírus ARN-49 à pedido das forças armadas estado-unidenses. Trêmulo e cambaleante, o homem deixou o consultório. Verônica respirou aliviada por um instante e foi se encontrar com a amiga.
Blair O’Brian, a amiga de infância de Verônica, desde cedo diferia das outras meninas por sua paixão quase obsessiva por carros e mecânica. Filha de imigrantes irlandeses bem sucedidos financeiramente, não tardou a entrar para o mundo das corridas e começar a competir profissionalmente até se tornar a primeira mulher a pilotar na Fórmula 1. Amada pelos brasileiros e apontada como sucessora do herói Airton Senna, Verônica fez fama, fortuna e era cotada como uma das favoritas ao título de 2017, ainda no início do campeonato. Entretanto, as disputas foram interrompidas no mundo todo pelo avanço do ARN-49, a fim de evitar proliferação do vírus pelo mundo. Assim, Blair passava férias com sua família em sua cidade natal. Comprara uma antiga escola (que ocupava um quarteirão inteiro) e fizera ali seu novo lar, em frente à casa onde sua companheira, Verônica, morava. Sua avó, sofredora do mal de Alzheimer, pediu-lhe alguns temperos especiais para preparar o faisão que Blair comprara para o almoço. A idosa espancava a ave congelada, queixando-se da carne dura, enquanto a neta saia para a rua em seu carro, um mini.
Foi na rua Voluntários da Pátria, já próximo à quitanda que algo estranho aconteceu. Logo após interagir com um grupo de estudantes que festejavam em um famoso bar local, num “esquenta” para a recepção aos calouros logo mais à noite, Blair interrompeu seu percurso para testemunhar algo bizarro. Um homem, que era perseguido por uma multidão em fúria, parou diante de seu carro, sendo rapidamente cercado pela turba. Um rapaz corpulento avançou sobre ele, agredindo-o por ter mordido sua namorada, assim como fizera a outras pessoas segundo os gritos da multidão. Em desespero, ou não, o perseguido mordeu seu agressor e outras pessoas que tentavam apartar os dois. A polícia chegou em seguida, dispersando a multidão e contendo o “canibal”. Os golpes de cassetete pareciam não serem sentidos por ele e foi preciso muita violência e dois soldados para contê-lo. Enquanto um terceiro policial dispersava a multidão, o quarto integrante do pelotão, que interrogava as testemunhas, chegou a Blair, perguntando se vira algo. Ela deu seu testemunho e foi logo reconhecida pelo soldado que pediu para tirar uma foto com ela. Enquanto faziam as “selfies” o suspeito aproveitou-se da distração para morder os policiais que o seguravam. Juntos os quatro oficiais voltaram a espanca-lo, enquanto Blair partia com seu carro rapidamente. Blair havia filmado tudo com seu celular e rapidamente disponibilizou em suas redes sociais, compartilhando o vídeo com a rede Hazma. Em seguida, recebeu notificação de denúncia do seu vídeo e do seu perfil, por parte de um tal Hamilton que trabalhava para a Cerberus Lab.
Já de volta à sua casa encontrou sua amiga Verônica e elas contaram uma à outra os estranhos fatos que vivenciaram e, ao perguntar à avó se vira algo estranho nos jornais daquela manhã, a idosa relatou o trágico naufrágio que ocorrera, vitimando mais de mil pessoas, entre outros detalhes. Ignorando a história do Titanic recontada pela milésima vez as duas checaram seus celulares e viram que o tal Hamilton tentava adicionar as duas, se desculpando com Blair pelo ocorrido. A resposta ao homem foram fotos ofensivas, com o dedo do meio levantado. O som de helicópteros e sirenes de polícia tomou conta das ruas e Blair ligou a televisão, vendo uma hesitante repórter dizendo que um confronto de manifestantes dificultava o trânsito na cidade e aconselhando as pessoas a ficarem em suas casas.
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Robert Neville era um competente infectologista que atuava em Araraquara. Atuara na ONU em missões no Haiti, onde fora ferido na perna da qual agora mancava. Havia terminado de atender seu terceiro e último paciente do dia e, enquanto se preparava para ir almoçar, enviava um e-mail para o Doutor Zeius, colega com o qual atuara na ONU, pedindo maiores informações a respeito do vírus ARN-49 e, inclusive amostras para estudos. Vira nos noticiários e acompanhava também por intermédio da rede Hazma a situação da pandemia global e sabia que tinha que estar preparado. Dr. Zeius lhe informara as formas de contágio (fluídos corporais, basicamente) e alertava para a alta capacidade de mutação do vírus (havendo até algumas suspeitas de formas de contaminação pelo ar) e se comprometera a tentar conseguir o envio de uma amostra, extremamente controlada, do agente infectante. Enquanto tentava sair do hospital São Paulo, por uma saída de acesso restrito, foi surpreendido por um residente em desespero. Havia ocorrido um grave acidente na rodovia SP-255, dois carros colidiram de frente, aparentemente para desviar de alguém a pé na estrada. A situação era gravíssima e, com muitos médicos já em horário de almoço, coube ao Dr. Neville ajudar, ainda que a contragosto. Mesmo sob orientação de Robert, o residente terminou por piorar o estado de um dos pacientes e, transtornado, feriu-se com o próprio bisturi. Neville assumiu a posição, salvando a vida do acidentado e logo depois pode finalmente deixar o centro cirúrgico com o retorno dos demais plantonistas.
Enquanto Robert Neville almoçava tranquilamente checou seu celular e viu que um pesquisador estadunidense de nome Hamilton o adicionara no Facebook, dizendo-se fã de seu trabalho. O astuto infectologista solicitou amostras do vírus ARN-49 sem adicionar o seu novo “amigo”. Foi quando começou a ouvir o som das sirenes e dos helicópteros e, desconfiado, ligou para a polícia, se aproveitando da sua patente no exército exigiu informações sobre o que acontecia. Segundo o capitão Malaquias, havia na cidade um confronto entre manifestantes pró e contra o prefeito que causara a confusão toda. Intrigado com a situação e suspeitando que o capitão mentia, enviou uma mensagem para uma das poucas pessoas pelas quais tinha estima, sua antiga colega de faculdade, Verônica Red.
Na casa de Blair, Verônica recebeu a mensagem de Neville a alertando, então ligou para seu pai, militar de alta patente, perguntando o que de fato ocorria. Falando em código, por estar obviamente vigiado, o Major Red orientou a filha a se colocar em segurança, deixando claro que a cidade já estava perdida.
Verônica desligou e avisou a amiga da gravidade da situação e planejaram ir para a praia e avisaram Neville por mensagem, foi quando ouviram o som de dois veículos se chocando, em frente à casa da psicóloga e correram para lá.
O homem que atravessara o para-brisa subitamente levantou-se e caminhou na direção das duas amigas enquanto Blair chamava uma ambulância, depois foi em direção à mulher no outro carro e pedia por ajuda. Enquanto as duas filmavam, o homem devorava a vítima do acidente diante das câmeras de seus celulares que transmitiam ao vivo pelo Facebook. Um tumulto se formou, com diversas pessoas chegando para acudirem e sendo atacadas à mordida pelo homem. Em pânico, Blair largou tudo para trás e correu para casa. Verônica conseguiu balear o agressor no joelho e ameaçou outro que tentava segurar Blair. O homem soltou a garota e em seguida foi atacado por outro agressor a mordidas, indo ao chão.
Era o início do fim. Rapidamente, Verônica começou a juntar coisas importantes no seu carro, munição, comida, água, seu cachorro e tudo mais que pudesse ser útil para sobrevivência, além de seu cachorrinho. De forma semelhante, Blair enchia seu carro de coisas e sua mãe e sua avó. Ao mesmo tempo, Robert, que já pegara aquilo que considerava importante em seu consultório, já ligava para Verônica para combinar um plano de fuga e se dirigia para sua casa.

Cada pessoa atacada ia a óbito e logo em seguida se levantava em convulsão e espasmos, tornando-se também uma aberração canibal e atacando os que ainda estavam vivos. Neville chegou atropelando um destes seres horrendos. Calmamente recolheu uma amostra do sangue infectado em seu kit médico enquanto as amigas ganhavam a rua com seus carros. Agora juntos, os três se dirigiam para a avenida Castro Alves, para chegarem rapidamente a uma das saídas da cidade e se refugiarem na fazenda do médico. Enquanto conversavam em conferência pelo WhatsApp, Verônica já enviava mensagens aos seus outros amigos, informando onde estavam e para onde iam. Evitaram por pouco uma batida enquanto Blair via as notificações pulando no celular, da Hazma avisando para encontrar lugar seguro e do dr. Hamilton, ordenando que parasse com os vídeos. No curto trajeto até a avenida, assistiam aterrorizados à cena que acontecia: os mortos se levantavam e devoravam os vivos. O fim do mundo começara.

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