Capítulo 3: REFORÇOS ARMADOS
Horas antes,
Troy sequer desconfiava que o mundo desmoronaria ao seu redor daquela maneira
bizarra. Deixara o consultório da doutora Verônica, satisfeito por saber que
sua condição mental continuava satisfatória. Travou a guia na coleira de Sammy,
a pastora alemã que era sua única companheira além da psicóloga com quem
mensalmente conversava. “Relacione-se mais com as pessoas e não apenas com sua
cachorra”, fora o conselho de Verônica. Já faziam cinco anos que estava no
Brasil e aparentemente encontrara a paz após tantas guerras lutadas em sua
vida. Seguia ainda a rotina disciplinada de um militar. Ia regularmente à
psicóloga e fazia tudo de forma metódica, mas sem nunca perder seu humor
sarcástico. Após uma despreocupada caminhada, chegou finalmente em casa e
pôs-se a preparar seu almoço. Sua atividade foi logo interrompida pelos latidos
incessantes de Sammy. Havia um homem, aparentemente drogado, chacoalhando a
grade do portão e provocando a cadela. Os pedidos insistentes de Troy não foram
suficientes para afastá-lo dali e ele foi forçado a empurrá-lo para longe do
portão com seu guarda-chuva. O homem tentou mordê-lo, mas o veterano foi mais
ágil e atirou o cidadão entorpecido ao solo. Pelo portão viu outros
semelhantes, usuários de drogas, pensou e no quintal ao lado um drogado tentou
agarrá-lo quando pôs a cabeça por cima do muro. O vizinho jazia caído no chão
da própria cozinha, o agressor manchado pelo seu sangue. Trancou-se em casa.
Ligou para a polícia. Olhando pela janela, viu uma família sendo agredida e
devorada pelo vândalo diante de sua casa e outros que se juntaram a ele. Ouviu
os ganidos de Sammy, comida viva por um bando que invadira seu quintal. E, por
fim, a própria plantonista no quartel da polícia em Ribeirão Preto, morria aos
gritos logo após ter relatado a ocorrência de muitos casos semelhantes ao de
Troy por toda a região. O soldado começou a desmoronar internamente, estava
prestes a se trancar em seu quarto do pânico, quando o telefone tocou, quase
levando-o a um infarto. Era a doutora Verônica.
_ Tio Sam? É você? – dizia ela, usando o
apelido pelo qual o estadunidense ficara conhecido. Após a afirmativa de Troy,
ela continuou. – O mundo está acabando. É
um apocalipse zumbi, igual àqueles dos filmes. Estou com u grupo aqui, estamos
fugindo para uma fazenda perto de Ibitinga. Venha com a gente. Estamos na
avenida dezesseis, roube um carro, uma bicicleta, qualquer coisa, e nos
encontre aqui.
A ligação foi
finalizada, Troy não acreditava no que acabara de ouvir. A mente militar e o
instinto de sobrevivência prevaleceram sobre o pânico. Ele se armou como pode e
saiu pelos fundos. Na frente da casa, os mortos se levantavam para atacar
outras vítimas e a própria Sammy se erguera da morte para arranhar a porta em
busca de sua carne. O soldado fugiu, furtivo como um gato, equilibrando-se em
muros, esgueirando-se entre árvores, e postes, desviando do número cada vez
maior de mortos-vivos que vagavam pela cidade. Chegou à rotatória que acessava
a rodovia, onde o caos de carros tentando deixar a cidade imperava soberano.
Olhando ao redor, viu o carro de Verônica entrando em um galpão fortemente
cercado por muros e grades. O som de uma sirene, ecoando de um carro prateado
que vinha em sua direção, o despertou do torpor. Sua mente estratégica traçou
um plano emergencial e ele seguiu para a fortaleza.
* * * * * * * * *
Não muito
longe dali, um ônibus da empresa de turismo Mota era obrigado e desviar do
trânsito que se aglomerava na entrada que dava acesso à rodoviária. Os
motoristas confabulavam enquanto se dirigiam à entrada do Instituto de Química,
tentando escapar do engarrafamento. O veículo deixou a rodovia abruptamente,
quase atropelando um rapaz. O motorista auxiliar desceu para tirar satisfações
do indivíduo que bloqueava a passagem e foi atacado a mordidas por ele, indo a
óbito. O condutor do ônibus desceu para acudir o colega e subiu em seguida, sem
os dedos da mão direita e com um buraco jorrando sangue aberto no pescoço.
Tombou morto dentro do carro e o agressor entrou em seguida, agredindo os
passageiros que tentavam correr para fora. Da poltrona 23, Robin assistia
àquele horror calada.
Acabara de chegar
da região da Palestina, foragida de sua própria família que não aceitara sua
união com um cristão. Seu filho recém nascido tinha sido levado logo após o
parto por um de seus irmãos. O pai da criança já havia sido assassinado pelos
mesmos que tinham roubado sua criança. Abandonara a quimioterapia para
tratamento do câncer no pulmão e viera para o Brasil em busca de sua prole.
Entrara com a ajuda do famoso jeitinho brasileiro, com sua AK-47 oculta em uma
bolsa de violão.
Do outro lado
do corredor, no assento 22, Romero via com igual espanto a cena saída de um
filme de terror. Chegara do México há pouco tempo e rodava o país em busca de
desafios. Adorava uma briga de rua e sempre ia em busca do mais forte. Fez o
sinal da cruz e se levantou, tirando o cutelo da mochila e foi em direção ao
devorador de humanos. Benzeu-se novamente, pedindo perdão a Cristo, e golpeou a
cabeça do canibal. O tampo do crânio voou, junto com metade do cérebro. A parte
que ficara ligada ao resto do corpo era de um aspecto bizarro. Todo inchado e
deformado, cheio de protuberâncias pontiagudas, de coloração
vermelho-amarronzada e pulsando como um coração, o cérebro se remexia na caixa
craniana e parecia se regenerar. O corpo tentava se levantar aos espasmos.
Assustado, Romero tentou recuar, mas foi agarrado na perna pelo motorista que
convulcionava no chão e retornava dos mortos. Uma rajada de metralhadora
explodiu sua cabeça, liberando o mexicano do horror. Juntos atiraram os dois
corpos para fora e fecharam a porta do veículo, já vazio. O som de uma sirene
de polícia ao longe e o caos que viam ao redor lhes deu uma direção a seguir.
_ Dirija! – ordenou Robin, num sotaque
extremamente carregado, enquanto apontava a direção. Romero deu engatou a
primeira marcha e o ônibus partiu. Por todos os lados viam pessoas em pânico
sendo agredidas a mordidas por pessoas em igual situação às que haviam acabado
de matar. Seguiram o som da sirene e viram um carro prateado entrando num
galpão cercado. Robin olhava pela escotilha superior de ventilação e
testemunhava o fim do mundo com seus olhos. Quando viram um militar a pé
seguindo na mesma direção, Romero ofereceu carona. Após hesitar, vendo
espantado a mulher de cabeça raspada, armada com uma AK e o mexicano tatuado,
com um enorme crucifixo no pescoço e um cutelo na mão, Troy finalmente entrou
no ônibus. Ligou para Verônica, que ainda estava desmaiada após o incidente em
frente ao condomínio, minutos antes. Blair atendeu e deu instruções para
pararem o ônibus diante do portão do depósito de remédios, bloqueando-o. saíram
pela escotilha superior, saltando dentro do terreno da Santa Cruz, na queda,
Troy torceu o tornozelo e, antes que pudesse reagir, foi medicado por Robert.
Atordoado, o ex-soldado foi carregado para a enfermaria.
Reunidos ali,
conversaram por alguns minutos, se apresentaram e tentaram entender o que
acontecia no mundo. Robert e Verônica, nerds de carteirinha, pareciam ser os
que mais entendiam do assunto. Após as explicações e apresentações, decidiram
um curso de ação: tinham que revirar o armazém, em busca de remédios e
equipamentos que pudessem ajudar no tratamento da avó de Blair e para se
certificarem que não havia mais daqueles monstros ali dentro.
Já no primeiro
galpão foram surpreendidos pelo som de caixas sendo jogadas ao chão. Era um
filhote de gato invasor que quase os matou de susto. Alice o recolheu e ficou
com ele. Robert encontrou algumas caixas de Vicodin e se deu por satisfeito,
retornando à enfermaria com suas preciosas drogas e deixando o restante da
busca a cargo dos demais. Alice e Romero
continuaram explorando o galpão e se depararam com o bizarro: oito funcionários
da distribuidora de medicamentos, agora infectados e transformados em zumbis,
continuavam a trabalhar, encaixotando remédios. Percebidos pelas criaturas, os
dois tiveram que correr por suas vidas, trancando o galpão atrás de si com as
aberrações à suas costas.
O som,
entretanto, chamou a atenção de outros infectos que surgiram correndo dos
fundos do terreno. O grupo formou rapidamente uma barricada com os bancos do
jardim, criando uma proteção rudimentar e Troy se juntou a eles no combate. Os
monstros se deslocavam com velocidade, desviando de obstáculos e saltando-os.
Um deles tinha seu rosto tão deformado que perdera nariz, olhos e orelhas, sua
cabeça convertida numa enorme bocara aberrante de dentes de tubarão. Sangue pútrido
jorrou fartamente e em pouco tempo os infectados foram destruídos. O grupo se
lavou rapidamente na torneira do jardim e continuou com sua busca. Em seu
caminho encontraram alguns outros zumbis, perdidos em seus afazeres rotineiros,
como se ainda estivessem vivos. Todos foram exterminados. Prosseguiram após
vasculhar todos os galpões de medicamentos e chegaram ao setor administrativo.
Vestiários, escritório, almoxarifado, tudo fora limpo de perigo e, quando
entraram no refeitório, foram surpreendidos pelo som de objetos caindo.
Encontraram um homem, um sobrevivente como eles, acuado num canto do
refeitório. Aparentemente ele não tinha qualquer ferimento e, após o susto inicial
de se ver cercado por um bando armado, o homem decidiu acompanha-los.
Já com todos
de volta à enfermaria, debateram sobre o que deveriam fazer. Decidiram utilizar
a ambulância da empresa para o transporte de Ema até a praça de pedágio entre
Araraquara e Matão, onde pegariam a unidade de UTI móvel para o tratamento
avançado da idosa. Depois iriam para a fazenda de Robert, onde se abrigariam
por um tempo. Antes porém, esperariam algumas horas passar, até que o trânsito
e o caos de pessoas tentando fugir e sendo devoradas terminasse. Mas, para
aguardarem em segurança na fortaleza conquistada, precisariam torna-la segura.
Reunidos foram
até o primeiro barracão e abriram sua porta. Os mortos caminhantes saltaram
sobre os sobreviventes, mas foram habilmente derrotados por eles. Munida do
sabre de Robert, Alice decepou cabeças, enquanto Blair os imobilizava com uma
lança improvisada com vassoura e estilete. Romero os dilacerava com seu
machado, entre uma prece e outra e Robin estourou os miolos de outros com
rajadas de sua arma. Blair descarregou o tambor de seu revólver nos restantes,
finalizando a contenda.
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